Por que Dom Quixote continua atual mesmo sendo difícil?

Maria Augusta da Costa Vieira, Departamento de Letras Modernas da USP, é estudiosa sobre este autor e comenta:

"A primeira coisa, que mais me impressiona, é o desafio que esta obra representa para o leitor. É como se o leitor não conseguisse se dar conta de toda a complexidade da obra. Um texto que estimula o leitor a pensar o tempo inteiro sobre a própria arte da escrita".

Árvore em crochê, feita por Diego (Cachoeiras de Macacu)

Então eu penso, como um livro pode ser vendido no mundo inteiro se o leitor não entende? 

A professora da USP Janice Theodoro relaciona a obra de Cervantes com "a crise dos sonhos", na atualidade. Para ela, o livro é uma aula: Como a realidade se transforma em sonho e o sonho em realidade? Na sua interpretação, o tema do livro é a defesa do homem justo. E sobre a consciência de cada um sobre o bem comum. 


Ela diz: "Dom Quixote não via o moinho de vento real - é porque ele tinha outro moinho de vento na cabeça". Ela compara com o tempo atual: quando acreditamos na propaganda "emagreça dormindo", fazemos igual a Dom Quixote. Só embarcamos no sonho se ele repercutir em nós. 

A loucura de Dom Quixote, segundo a professora, é a loucura do homem que se vê. "O livro nos ensina a ser prudente numa sociedade sem igualdade".


A professora diz: "Vivemos numa sociedade em plena crise de responsabilidade: os jovens não embarcam mais nas utopias".

O sonho diminuiu a dimensão temporal das projeções. Hoje sabemos que não é tão simples. 


Conclusão pessoal da professora sobre a obra de Cervantes: "Se na sociedade do século 16 existia espaço para sonhar com um mundo melhor, em parte é devido à moral cristã. Hoje precisamos dos bens para nos classificar. Ou seja, o valor não é mais dado ao espírito da pessoa. Quixote termina deixando como legado dentro do mundo cristão, que o que nos resta antes da morte é aconselhar bem a quem faz mal. Na obra, Sancho diz: 'A loucura de Quixote é a loucura relativa'. Se eu não sei o que é o certo, eu não sei como caminhar. Que parte da ideia de que, se Deus é bom, se ele nos deu o mundo, podemos fazer do mundo um lugar bom. Na obra a morte começa quando paramos de sonhar é como se Cervantes nos dissesse - Uma vida sem sonhos é viver entre os mortos. Ele nos ensina: a vida é cheia de tropeços, então é bom a gente rir". 


Comentário de Reinaldo Wolff sobre este tema da professora: "Sonho excessivo é como mergulhar na ilha de fantasia, tal como uma psicose. Tem que sonhar, mas também tem que realizar. Tudo no equilíbrio. Extremados sonhos, sem conexão com a realidade, são estados psicóticos".

Ele definiu o livro de Dom Quixote: a complexidade de um idiota.


Fotos: Acervo Equipe Wolff. Proibida reprodução.

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