Como entender a hostilidade?

Por ANNA WOLFF

Estou no Espírito Santo. Os holofotes da TV parecem furiosos em sua invasão de luz. Em minha volta estão pastores e padres. Eu represento o espírito livre do Loto Horóscopo, que nesta época, ainda estou escrevendo. Atendo muitas pessoas em resposta de meu programa na Rádio Vitória, e escrevo horóscopo para o Jornal A Gazeta.


O padre diz:

— Vocês leram Eugenio Gudin no jornal O Globo? Ele explica que há dois tipos de democracia: a Socrática, que é a liberdade do pensamento, e a Cristã, que é a valorização do ser humano.

Eu o interrompo cheia de ânimo:

— Não existe democracia Cristã onde existem dogmas.

Todo aquele grupo salta, como polichinelos dentro de uma caixa.

— Quer dizer que Cristo não foi o precursor da democracia?

— Foi. Mas a palavra Dele vem sendo interpretada de maneira diferente de como foi falada. Explico: dogmas são repressão. As práticas dos pensamentos cristãos são expansão.

Cúmplices, padres e pastores se olharam num profundo entendimento.

— Então, ao seu ver, somos culpados por distorcer as palavras do Evangelho?

O apresentador do programa viu uma crise de ideias estalando no ar. Chamou os comerciais, para dar tempo dos participantes de se entenderem. Neste momento, há como uma espécie de vertigem no tempo, em minha mente. Volto ao meu tempo de criança.

Quem em Niterói não conhecia a Fantástica D. Stela Tempestade de Melo? Parece que a vejo surgir em minha mente. Seu tipo humano é para mim assustador, como seu nome. Muito gorda, enérgica, de fala vigorosa, ela gira o giz no ar e escreve os ensinamentos no quadro negro. Usa tanta força que o giz quebra-se com frequência. Mostra autossuficiência inigualável. Sou estreante em sua sala. Não entendo nada do que ela ensina. Então simplesmente colo tudo da amiguinha do lado. D. Stela percebe e grita comigo:

— Venha já para o quadro resolver esta expressão matemática! É sua obrigação saber tudo isso!

Vou como um ratinho acuado. Não consigo nem olhar de frente para o rosto dela. Dou uma espiada e a vejo rubra de emoção. Ela me diz então:

— Sabe que colar é praticar fraude?

Não sei bem o que ela está tentando me dizer. Mas ela está furiosa! Diz para a menina da frente:

— Vá à quarta série e chame Estelinha.

Num repente, está diante de mim uma menina franzina, muito menor do que eu. D. Stela pergunta:

— Sabe fazer este exercício?

A menina é um sucesso. Faz tudo certinho. D. Stela regurgita:

— Viu? É muito menor do que você, está numa série abaixo da sua, e sabe o que você não sabe.

Em breve aquele dogma iria mudar. A humilhação cobre-me de suor e o rosto fica fervente. Junto forças e pergunto para a colega:

— Que idade você tem? Ouço aquela voz fininha até hoje dizer:

— Tenho quatorze anos. E você?

Minha resposta vem triunfante:

— Tenho nove anos, e cinco anos para aprender o que hoje você sabe!

Anna aos 9 anos

Desta maneira, saí da repressão. Neste momento, todos saem para o recreio. Minha pasta com o pagamento da escola fica debaixo da carteira. É quando Celinha, a menina que me dava cola, aproveita para roubar aquele dinheiro. Ao saber do fato, D. Stela vira um verdadeiro tufão. Cria uma tal repressão que acaba por descobrir quem roubou aquele dinheiro, que aguardava com tanta pressa.

Ao ser apontada por toda escola como ladra, a vergonha cobre a face de Celinha. O arrependimento traz uma enorme sensação de culpa. Passa a viver numa ansiedade constante, e desenvolve uma conduta brutal, agressiva.


É tudo que aqueles religiosos ali estão querendo me fazer reviver. Eu não os culpo porque não tenho o poder de perdoar. Posso apenas dizer: A repressão, a ansiedade e a culpa são os fatores básicos das desordens mentais. A hostilidade é a sensação de perda numa batalha de palavras. Faça seu jovem ganhar autoestima e diminuirá a agressividade no lar, na escola e nos relacionamentos homem-mulher.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Anna Wolff apresenta:

Três olhares sobre o amor na literatura: Virginia Woolf, Lya Luft e Anna Wolff

O segredo de Anna Wolff - uma autobiografia