"Eu não sou eu nem o outro", diz Mario de Sá Carneiro. Então pergunta-se ao autor: "Quem é você?"

EU NÃO SOU EU NEM O OUTRO
Poesia de Mário de Sá Carneiro


“Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando eu me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida,
Um astro doido a sonhar
Na ânsia de ultrapassar
Nem dei pela minha vida

Para mim é sempre ontem
Não tenho amanhã nem hoje
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.”

Anna Wolff faz crítica ao poema:


Discutindo o tema: Eu não sou eu nem o outro - o labirinto do próprio eu - no poema de Mário de Sá Carneiro.


“Ao dissertar sobre o tema em referência, vamos despir a ideia central como todo de uma verdade. Este poema é um autêntico sintoma de psicose. Que é uma doença mental, onde há falha de interpretação entre os estímulos recebidos, e os estímulos oriundos no próprio indivíduo. Observe em especial, as afirmações: “porque eu era labirinto... Passei pela minha vida... Um astro doido a sonhar...”


A psicose encontra-se perfeitamente caracterizada pelos sintomas de fantasias, crises de tristeza, despersonalização (observe o próprio título do poema), comportamentos imaturos, e renúncia do mundo objetivo

Esse último aspecto claramente evidenciado nas duas linhas que finalizam o poema. E a psicose mostra-se mais avançada, revelando a oscilação entre o mundo interior e exterior. Com a perda gradual do aqui e agora, e a tentativa de retomar a realidade: é hoje quando me sinto - é com saudades de mim.


Nota-se que a impressão sensorial é recebida corretamente quando ele faz uma análise do que representa o tempo para ele e as demais pessoas - para mim o hoje é sempre o ontem... - e a penúltima frase do verso.

Contudo, a interpretação psicológica dele é errônea. O tempo que aos outros foge - cai sobre mim feito ontem. Evidencia além disso um outro aspecto: desilusão falsa. E outros ainda: desejo autístico (pensamento sem objetivos de realidade). Fantasias. Expressões repetitivas.

Na falta de talentos reais, consagremos os “Mario de Sá Carneiro”, os psicóticos na arte.

(As interpretações acima fazem parte do tema “Psicose” do Dicionário In-Luz no Ocultismo, de autoria de Anna Wolff. Autopublicação em 1980, edição esgotada).

H. Murray era o pseudônimo de Anna Wolff no início da carreira.
    


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