Entre o ideal e a realização
O cientista Miguel Nicolelis diz: "O cérebro precisa de história. O ser humano é a única espécie que existe que criou uma abstração para sincronizar todos com algo que não é tangível".
Vamos rever um artigo publicado em jornal sobre "É preciso ter um ideal, mas qual é o segredo para alcançar meu objetivo?". Agora é página do livro Percepção - Guia mágico de sobrevivência na selva das emoções.
Meu primeiro emprego
Por ANA MARIA WOLFF
Minha neta está toda saltitante. Fala afogueada:
— Inscrevi-me num concurso de matemática e vou ganhar uma viagem para os Estados Unidos!
— Espera aí! Como você fará esse concurso se não está estudando para esse fim?
— Ah, eu me viro!
— Pelo que entendo, também haverá prova de inglês?
— É nisso que eu confio. Na escola, ninguém sabe mais inglês do que eu. Estou dando aulas para minhas colegas, e elas estão adorando o nosso curso!
Meu Deus, que inexperiência! Minha mente faz uma sintonia ciclópica com meu passado. Posso ver de novo aqueles anúncios enormes no jornal O Estado de São Paulo, oferecendo muito dinheiro para secretárias bilíngues com estenografia. Essa era uma espécie de linguagem simbólica feita de traços e pontos para captar uma fala rápida. Ao ver aquele dinheiro prometido, enchi-me de ambição. Pensei: “quero esse dinheiro mensal!” Olhei-me no espelho: minha aparência era presente de Deus. Magrinha, de cabelos abundantes e com o corpo que toda mocinha sonha.
Com 23 anos, achava que o mundo era meu. Tentei estudar estenografia, mas logo desisti. Era muito inquieta para me concentrar. Ainda assim, eu queria aquele dinheirão do ordenado anunciado. Foi quando tive uma ideia. A televisão da época, em preto e branco, não tinha a sedução das atuais imagens coloridas. Contudo, pulei do sofá quando vi anunciado um gravador. Imagine que fantástico! Um fio de cobre era capaz de reproduzir com absoluta clareza a voz humana. Só que era incrustado num volume de 10 quilos — considerado portátil, pois tinha até alça para carregar! Minha ideia, que me pareceu brilhante, fez-me agir.
— Aonde você vai? — pergunta meu irmão.
— Realizar meu destino. — Saio apressada com um monte de recortes. A necessidade desse tipo de mão de obra era tão urgente, que quando cheguei na primeira firma, o americano me perguntou: — A senhora é capaz de acompanhar minha fala?
— Instantaneamente! — Pensava no gravador que iria comprar se ele me contratasse.
— Pois está contratada como mão de obra avulsa. Estou com muito serviço atrasado. Se for realmente rápida, e suas informações cadastrais forem boas, eu a efetivo.
Fui direto na loja e comprei o tal gravador. No dia seguinte, pisando num salto muito alto, eu me equilibrava para não cair com o peso daquela máquina.
— Podemos começar? — perguntou-me em inglês. Segurando o pesado microfone com grande orgulho, ele pigarreou e disparou um inglês feroz, que não entendi absolutamente nada! Ali eu já tinha estudado sete anos de Cultura Inglesa e cinco anos de Ibeu. Pensei que sabia inglês! E o gravador? De tanto eu retroceder o fio gravado, acabou por se partir. O serviço estava perdido e eu despedida.
Minha neta precisa da experiência que vai ter. Ela pensa que sabe, e quer conquistar o mundo, acreditando que para ela vai ser fácil o que para os outros é tão difícil. Na verdade, não basta ter um ideal. É preciso se preparar para ele, doar-se inteiramente para o objetivo proposto.
Um segredinho a mais: Ter fé — em si, e em Deus. Esta é a raiz do sucesso!
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