A inflexibilidade e a disciplina
Vamos rever um artigo publicado em jornal sobre o tema dos laços de intercomunicação na família. Agora é página do livro Percepção - Guia mágico de sobrevivência na selva das emoções.
Educação severa ou maldade?
Por ANNA WOLFF
O cliente desabafa:
— Não me saem da cabeça as palavras que meu filho me diz! Nem sei mais se ainda gosto dele. Deus que me perdoe! — Naquele momento, ele pinta um quadro de total agressividade entre ele e o filho. Reclama das tatuagens, dos piercings, das roupas desestruturadas e da falta de atitude do filho para o trabalho. Enquanto ele, homem rico, esforça-se ao máximo para dar à família o conforto de um padrão muito elevado. Ele continua: — Meu filho é atrevido, desrespeitoso. Como aquele menino doce se transformou num jovem irresponsável e violento?
Estou em silêncio. Procuro uma razão que possa melhorar aquele relacionamento. Finalmente pergunto: — Sua mulher vai a favor dele?
— Não. Há muito tempo que ela saiu de casa. Não quis saber dele para não atrapalhar seu novo relacionamento. Acha que a mim compete educa-lo.
— Acredito que esse tempo já passou. Perceba: Agora a situação é outra. Resta apenas o respeito mútuo. Com dezesseis anos ele já pode pensar na direção de sua própria vida. É preciso respeitá-lo para ser respeitado.
— Respeitar aquele frangote, sem eira nem beira? Ele é que tem de me aceitar uma vez que come o meu feijão!
Ali estava configurada a intransigência, que veda todo relacionamento. Meu pensamento aqui dá um mergulho, e me vejo na infância, em Icaraí.
Frequentava uma escola particular, cuja proprietária tinha um sobrenome assustador: Relâmpago. Ela agia como um verdadeiro trovão: berrava os ensinamentos. Um dia, perdeu a paciência e quebrou uma régua no braço de um aluno recalcitrante.
— Dói? — perguntei a ele baixinho, com medo da professora. Com apenas oito anos, queria ajudar aquele garoto. Para minha surpresa, ele não sentiu medo, nem vergonha, mas uma tremenda reação o invadiu. Disse, então:
— Vou ser o primeiro aluno aqui, e ela vai se arrepender do que fez.
O pai do menino não o tirou da escola, mas contratou os serviços particulares da professora tempestuosa. Não sentiu pena do filho, nem de gastar mais. Disse: — Filho meu não traz vergonha para casa! — Sim, ele foi intolerante com o fracasso do filho, mas não o humilhou com seu poder de pai todo poderoso.
Não foi intolerante com o filho, mas exigente no cumprimento do dever de educar.Completamente diferente deste pai que vejo agora na minha frente. Pense comigo: como a intolerância ceifa a espontaneidade que faz surgir a criatividade! Com atitudes impenetráveis, aquele primeiro pai sufoca os laços de intercomunicação. Ele confunde inflexibilidade com disciplina. Disciplina é ritmo. A inflexibilidade é quebra do ritmo. Sabe por quê? Não dá expressão de continuidade no sentido do crescimento.
Só amor faz crescer o entendimento.
A figura de Marianinha me volta à lembrança.
— Anda, minha filha, você está atrasada. O ônibus já vai passar! — Laurita, sua mãe, era absolutamente intransigente. Cuidava da filha nos mínimos detalhes. Levava-a para passear aos domingos, cheia de rendinhas, organdi engomado, e um enorme laço de fita na cabeça. Eu não fui com elas. Era muito despreocupada com tudo, mas tinha uma enorme inveja dela: sua mãe era afetuosa, preocupada, intransigente! Eu me sujava na terra, o laço do meu cabelo acabava no chão, minhas unhas ficavam encardidas: eu não tinha mãe. Ela havia morrido.
Os anos correm e eu revejo Marianinha, ao sair da Duomo, uma confeitaria elegante de São Paulo. — Ana, como eu tinha inveja de você! — ela me diz. — Você era livre! — Agora, estou com os cabelos molhados e venho do clube. Ela vem do Antoine, cabeleireiro da moda. Eu fiquei viúva com 49 anos de casada. Ela cedo se separou. É infeliz: Não aprendeu a ser livre. Poderia estar usufruindo da liberdade conquistada.
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