Qual é o fator primordial de manter a família unida?

O resgate
Por ANNA WOLFF 

Estamos em 1963. O navio Rosa da Fonseca vai suave em direção ao Nordeste Brasileiro. Adiante de nós, um poente magnífico: o céu está translúcido e cores inesperadas atravessadas pelos raios de sol pintam o horizonte. Estou no convés, aproveitando o frescor da tarde. Ao meu lado, uma senhora alemã fala:

— Eu vou encontrar meu filho. — A voz de Helga é intensa, quase desesperada.

— Perdeu seu filho? — Minha curiosidade incentiva-a a falar. Ela imediatamente relata o fato:

— Eu vivia na Alemanha com meu marido e dois filhos de seis e sete anos. A guerra estava nos seus momentos mais dramáticos. A sirene estava tocando. Era como uma ordem imperiosa para que todos corressem para o abrigo antiaéreo mais próximo. Eu estava sozinha, com meus dois meninos. Meu marido tinha sido convocado para o pelotão de defesa terrestre. Digo para os garotos: “Vamos imediatamente!” Hans, o menor, estende-me sua mãozinha trêmula. Praticamente se enrola na minha saia. Gustaf não atende. Diz com preguiça: “Espera, quero pegar meu estilingue e minhas bolas de gude”. “Vem!” grito, imperiosa. Corro com Hans e chego ao abrigo. A seguir, ouço um estrondo. Vou verificar depois que a bomba havia caído justamente em nossa casa. Nunca mais vi o Gustaf.

— Ele ficou nos escombros?

— Não sei! E, esta é minha dúvida crucial. Um amigo me disse que o viu no Ceará, em situação lamentável. Vou encontrá-lo!

Pensei: Como Helga poderá identificá-lo? Ele já deve ser um homem, pois ela o perdeu há vinte anos. Num flash de segundo, entendi: Ela estava naquele navio porque havia ficado traumatizada com aviões.

Bem... Ela no Brasil era a gerente-geral de uma firma de malhas e comandava duzentos funcionários. Por que todos eles a obedeciam e seu filho a desobedeceu? As perguntas ficaram sem respostas. Nunca fiquei sabendo se ela reencontrou o filho ou não. Mas a lição que eu tinha de aprender estava naquele contexto: o conteúdo de uma voz de comando que faz os liderados obedecerem.


Em 2011, uma garotinha de sobrenome Klein veio me dar a resposta. No programa Raul Gil, da SBT, ali estava ela contando como toda família se salvou da tragédia em Friburgo.

— Meu avô nos acordou às 2h30 da madrugada e ordenou: Saiam todos! Lá fora está tudo caindo!

A família estava em três casas diferentes, num horário em que o sono é mais pesado, mas todos saíram! Que espécie de liderança teve esse avô que salvou a todos? O que havia na voz dele, que não houve na voz de Helga, do caso anterior? Um minuto mais e teriam sido soterrados! Uma avalanche de água e lama vinha avassaladora, cobrindo tudo e todos. As casas em volta caíram, mas toda a família se salvou! Aí vemos o valor da verdadeira educação, onde há respeito à voz de comando do líder!

Aqui, conversemos sobre o que é autoridade e autoritarismo. Todos pensam em ter liberdade. Porém, liberdade não é libertinagem ou vandalismo. A ninguém é permitido o direito de destruir, mas todos temos capacidade de construir e reconstruir. Não importa que tipo de nível social, profissão, credo religioso ou político tenha aquele que se dispõe a reconstruir, mas nem por isso cabe o autoritarismo.

O autoritário se atribui do poder de mando, mas seu exemplo carece de força espiritual. O mando de um líder vem pela natural aceitação da equipe reunida em núcleo. O fator primordial é o vigor espiritual, a capacidade de ensinar os que estão à sua volta, e estabelecer disciplina no meio em que vive. Principalmente se impor pelo amor e não permitir desrespeito em hora nenhuma! 


Obediência é uma força de defesa da vida: temos de obedecer às leis do país, e obedecer aos pais dentro do lar. Esta é a lei da sobrevivência!

Artigo publicado em jornal sobre o tema de autoridade e autoritarismo. Agora é página do livro Percepção - Guia mágico de sobrevivência na selva das emoções.

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