O tempo é uma sucessão panorâmica de nossos estados de consciência - continuação

Continuando a conversa, enquanto aguardávamos no carro, sobre lembranças de infância de minha mãe-escritora. Anna relata:

Fato mais chocante: papai não providenciou minha certidão de nascimento. A meninada que me pedia cola, e eu esnobando porque estudava muito. No final eles passaram de ano - e eu não, porque não tinha a certidão. Eu chorava muito, fiquei muito triste. Enfim, papai me matriculou noutra escola: o Ginásio Anchieta, que já acabou, não existe mais.

Eles davam, por ordem, quem era o primeiro aluno - eu recebi o boletim - eu estava em sexto lugar. Aquilo eu não gostei. Pensei: vou tirar o primeiro lugar. Consegui. Outra menina, Ana Lúcia, era filha de correligionário do Professor Villela, dono da escola. Eu gostava demais desse professor, mas tinha hábito esquisito de se automutilar. Botava um alfinete na boca e mordia a língua, porque não queria comer, não queria ter fome! Sangrava e chupava o sangue.

Apesar disso, era brilhante. Eu o admirava, que inteligência soberba! E ele dizia: A aluna mais inteligente que eu jamais vi foi Ana Maria.

Outra cena: Roberto entrou na mesma escola - não, ele estava noutra escola, que eu já havia passado por ela. Eu tirei primeiro lugar de todo o ginásio - dez em todas as matérias. Fui considerada gênio. Não tinha o mesmo critério... Era muito esforço: competi com Ana Lúcia. Eu tirava segundo lugar o ano inteiro - ela tirava 10 e eu 9,7 - sem razão nenhuma. Um mês ele me deu 9,9. E ela, 10 em tudo.

Reinaldo entra na conversa e deduz: Ele, de certo, passava fome e o partido ajudava.

Anna continua: Até que chegou o dia da desforra. Banca examinadora, eu passei com 10 em todas as matérias. A menina, na hora da banca, não lembrava de nada. Os outros professores não tinham sido informados da qualidade daquela aluna.


Fui a melhor aluna de todos aqueles alunos da escola. Cheguei para falar com papai. Ele: "Você passou?" - "Passei!" - "Não faz mais do que a sua obrigação" -"Pai, porque não sente orgulho de mim?" - "Foi normal. Escola e tudo pago". Aí chega o Roberto. Ele diz: "Ah, meu filho, você passou de ano?". Roberto passou raspando. E brincou: "Um civil (onde se viu) uma coisa dessas!" E aí deduziu por brincadeira: "Um civil não pode ser militar".

Depois disso eu briguei com o professor de inglês e aí voltei para o Pio XI. Cheguei lá, eu vinha com ordem do MEC. 


O que me deixou traumatizada: papai me obrigou a sair daquela escola quando faltava 6 meses, havia total diferença nas matérias. Eu ia perder totalmente o ano. Zulica, minha madrasta, contou para amiga Maria José (a irmã dela era secretária do Ministro da Educação).

Zulica (à esquerda) e Anna.

E lá foi Zulica batalhar no MEC para eu entrar no Pio XI - no meio do ano. Vim com ordem do Ministro para abrir vaga para mim no Pio XI.

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