Observando as duas realidades de estudos: a de antigamente e a dos tempos atuais

Vamos rever um artigo publicado em jornal em 20 de julho de 2011, sobre o tema "Os estudos e a vontade de estudar". Agora é página do livro Percepção - Guia mágico de sobrevivência na selva das emoções.

É só uma questão de ponto de vista!

Por ANNA WOLFF

Vamos dar um mergulho no tempo. Assim, estamos em 1940. Meu professor Vilela para em frente ao Lúcio, e em atitude severa, pergunta:

— O que você está escondendo aí?

Meu colega gagueja, e não pode responder. Está com a boca cheia de bolo. Depois de engolir em seco, ele responde gaguejando:

— Estou com muita fome! Não consigo esperar a hora do recreio!

A sala inteira cai na gargalhada. Ele sempre sente uma fome descomunal.

Contudo, o Professor Vilela não vê que o maior delito é o meu. Estou lendo no jornal O Globo, no Suplemento Juvenil, as histórias de Flash Gordon e Dale Arden. Ela é a precursora da minissaia e das botinhas. Os dois são navegadores, e descobridores do espaço cósmico. Fico fascinada com suas aventuras.

— Prestem atenção! — diz o Professor Vilela. — Em latim, o que valem são as desinências ou palavras adicionais, como os sufixos. Vamos então pedir à Maria José que decline o verbo ser, em latim, no presente do indicativo.

Aqui, o que vemos é ela encher a boca de cuspe, e dizer, numa sequência, todas as terminações expressas num mesmo som. Ela tem a língua presa. Agora, a risada é estrondosa!

Enquanto a aula corre solta, eu me delicio com os outros heróis da época. Brucutu é um selvagem cheio de amor. Agarra a amada pelos cabelos, e leva-a para sua caverna. Pena é que são poucos quadros contando a história. Depois, vem o Fantasma, o eterno solteiro que vive mil aventuras, menos se casar! Segue-se a história do Príncipe Valente. Fico apaixonada com seus desenhos, verdadeiros quadros de pintor famoso, tipo Tintoreto, ou Da Vinci, ou outros. E... o Tarzan? Desse eu não gosto. Ele é para mim o símbolo do ignorantão — só entende de bichos. Eu gosto de histórias de gente civilizada, com exceção do Brucutu!

O Professor Vilela me pergunta à queima-roupa: 

— Qual o ablativo de Rosa, Rosae?

Respondo: 

— Rosam.

Ele faz outra pergunta. Depois outra e mais outra. Acerto todas! A leitura dos quadrinhos havia dinamizado meu pensamento e minha forma de decorar a matéria. Sim, faço quadrinhos e resumos para decorar todos meus estudos! Nessa época os quadrinhos eram leituras proibidas, condenadas por todos os professores simples ou renomados. Mais adiante no tempo, foram aceitas, e depois se tornaram eficientes ajudas educacionais. O mesmo se dá hoje em dia. Os jovens têm acesso muito cedo à internet. Então se habituam às informações dinâmicas. Chegamos nós, adultos ou professores, com toda nossa cultura do século passado, lenta ou prolixa, e queremos resultados eficientes! Então, como não considerarmos o ritmo ciclópico de uma cabecinha jovem? Pensemos!

O problema fundamental não está nos jovens, mas na maneira como se transmitem os ensinamentos... E onde estão os estímulos? Faltam disputas acirradas — tal como no futebol, e estímulos alcançáveis pelo desempenho. Inspiremo-nos e adiantemos nosso relógio no tempo. Agora não são mais quadrinhos que farão a revolução nos métodos de ensino. Pensemos: O que pode ser? Darei a resposta na próxima quarta-feira, neste jornal...


A situação atual 

O que acontece com a não-persistência nos estudos?
O que acontece quando não dá vontade de estudar?
Qual a consequência do uso excessivo de computadores por jovens e crianças?

O uso compulsivo de jogos onde imperam lutas de poder entre o bem e o mal, onde estratégias bélicas até entre alienígenas - tudo isso causa ansiedade entre ganhar e perder num crescendo. Sons terrivelmente irritantes ao cérebro. Soma-se a isso, filmes de ação com street fighters. E temos aí a nossa nova realidade: a violência chega antes da formação da imaginação infantil. 

Qual será, no futuro, a consequência no comportamento dessas crianças?

Nos anos 70, muito se debateu entre pedagogos sobre a simbologia dos clássicos contos de fadas infantis. E o que se tem hoje de modelos nas histórias que invadem o imaginário infantil? O que mais se tem são modelos narrativos cheios de alucinações, delírios, e pesadelos violentos e mórbidos - que pedagogicamente nada constroem. Esses modelos violentos, ao invés de produzirem fundamentos de equilíbrio no ser humano - contribuem para aniquilar a autoestima e para, muito principalmente, acovardar os jovens para a vida. 
O conjunto: violência, terror, morbidez - custam os resultados pedagógicos. Provocam um medo profundo e aparentemente inexplicável. 
A conclusão disso tudo: os jovens não conseguem estudar. 

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